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Por um mundo (da cultura) melhor? Um debate sobre a lei Rouanet

Publicado em 07 novembro 2011 por Leonardo Morel


Uma matéria recentemente publicada no jornal Correio Braziliense relatava que o festival Rock in Rio teria recebido irregularmente R$12,3 milhões através da Lei Rouanet, política de incentivo fiscal que possibilita que empresas (pessoas jurídicas) e cidadãos (pessoa física) apliquem uma parte do IR (imposto de renda) devido em ações culturais. A reportagem argumentava que o referido montante fere os princípios da democratização e descentralização defendidos pelo Ministério da Cultura por se tratar de um evento com fins lucrativos e cobra maior contrapartida dos produtores do evento. Leia a reportagem na íntegra.

Com relação às denuncias apontadas, cabem aos órgãos competentes de controle fiscalizar e tomar as medidas cabíveis, visto que uma nova edição do festival está programada para o ano de 2013 e deve-se evitar que tais procedimentos se repitam. Porém, esse não é o foco deste artigo. Pretendo aqui refletir se a Lei Rouanet vem realmente proporcionando o fomento da cultural brasileira de maneira acertada.

Como mencionado anteriormente no artigo A banda mais bonita: modelo colaborativo que dá lucro, o setor cultural sempre dependeu de financiamento para se sustentar. No passado, Leonardo da Vinci e Mozart dependiam do mecenato para exercer suas funções. Já nos dias de hoje, as leis de incentivo fiscal tornaram-se essenciais para viabilizar projetos. Porém, de acordo com a legislação vigente, fica a critério dos agentes do setor privado decidirem o destino de tais recursos e, por conta disso, questiono até que ponto é correto que uma empresa possa decidir onde, no setor cultural, será aplicado o dinheiro público. Como assegurar que tal mecanismo não contribua primordialmente para a divulgação de marcas em vez de fomentar a democratização e o acesso aos bens culturais?

Em entrevista ao Correio da Cidadania, o produtor cultural Jorge Nunes, com experiência na coordenação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), afirma que o motivo de grande parte das empresas patrocinarem projetos é a exposição da marca. Ele afirma que: “…na verdade, o que move as empresas no fomento aos projetos, em primeiríssimo lugar, é o retorno institucional, ou seja, a associação do produto e da marca da empresa a um evento de categoria, que tenha importância e desperte interesse da população.” E quando se trata da diversidade cultural, o produtor alega que existe uma concentração de aplicação de recursos no eixo Rio-São Paulo. Leia o texto na íntegra.

A Lei Rouanet está em processo de alteração na Câmara dos Deputados, em Brasília, e está sendo avaliada pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), formada por representantes da sociedade civil, setores culturais e governo, responsável pela avaliação e aprovação de projetos pleiteantes ao incentivo. É um momento bastante oportuno reavaliar o papel de tais incentivos, corrigir os desvios percebidos e buscar tomar medidas que objetivem o fomento da cultura brasileira com a finalidade de que interesses meramente corporativos não fiquem em primeiro plano. Sonhar não custa nada.

O mesmo tipo de tratamento deve ser posto em prática na questão da meia entrada para o ingresso a eventos culturais. Nos dias de hoje, a maioria dos eventos culturais (shows, peças de teatro, cinema, etc.) vem utilizando o preço da meia entrada como base de cálculo para equilibrar suas planilhas de custos, fazendo com que o preço cheio seja na verdade o dobro do que deveria ser. Tal política também necessita ser revista, pois, assim como aconteceu com os incentivos fiscais, percebeu-se a ocorrência de vícios, como mostra o artigo “Brasil atrai indústria de shows com ingressos mais caros do mundo” do site Cultura e Mercado (leia aqui).

O momento de prosperidade econômica pelo qual vem passando o Brasil acarretou a vinda de grandes eventos esportivos ao país como a Copa do Mundo e as Olimpíadas e de festivais de música de grande porte como o Rock in Rio. Não seria mais do que necessário repensar nossas políticas culturais, “por um mundo melhor”?

Colunista Leo MorelLeo Morel é baterista, percussionista da cena musical carioca e autor do livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos. Para conhecer o livro e demais informações acesse http://musicaetecnologia.net/, ou e-mail para leomorel@musicaetecnologia.net.

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‘A banda mais bonita da cidade’: modelo colaborativo que dá lucro

Publicado em 21 julho 2011 por André Iunes Pinto

Grupo arrecada com fãs mais de R$52mil para gravação do primeiro disco

Depois de se tornar um fenômeno na internet devido à disseminação do vídeo da música Oração, que já registra mais de seis milhões de acessos, A Banda mais bonita da cidade apostou na força das redes sociais e na comunicação direta com seu público para gravar seu primeiro CD. Por meio de um sistema de financiamento colaborativo (conheça aqui o site), os fãs puderam escolher quais canções farão parte do novo trabalho, tendo como vantagem o acesso a benefícios que variam de acordo com a quantia por eles fornecida. Ao contribuir com R$10,00 (valor mínimo estipulado), por exemplo, a pessoa ganhará o direito de receber a música por ela selecionada assim que a mesma ficar pronta. Já por R$300,00 (valor máximo), o colaborador poderá assistir a gravação da música.

Após trinta e quatro dias na Catarse, plataforma especializada em financiamento colaborativo, a Banda, por meio de sua assessoria de imprensa, divulgou que das doze músicas colocadas no site, onze atingiram o valor solicitado para a gravação. No total, foram 903 colaboradores de 155 cidades do Brasil. Do exterior, registraram-se contribuições de fãs de países como Portugal, Estados Unidos e Itália. A cifra arrecadada ultrapassou R$52 mil e a maior parte veio de pessoas que doaram R$25,00 e em troca irão receber o CD da banda. O mapa abaixo aponta de onde foram feitas as contribuições em território brasileiro:

Segundo sua assessoria, esse material será lançado ainda em 2011 e as gravações acontecerão entre julho e agosto. Além disso, como proposta da banda, todas as músicas serão documentadas em vídeo, onde apenas quatro das onze serão em estúdio, todas as demais serão realizadas em locações diversas.

Com a crise do modelo de negócios estabelecido pela indústria fonográfica e a ascensão de novas tecnologias, A Banda mais bonita da cidade encontrou uma excelente maneira de financiar os custo de produção de um disco e ao mesmo tempo promover a aproximação direta com seu público. Aproveitou-se o momento em que a música Oração se tornou um fenômeno viral na internet, responsável por colocar a banda em evidência, para contar com a contribuição de fãs nessa empreitada e o resultado foi bastante promissor, visto que o montante arrecadado lhes permitirá realizar seu primeiro CD utilizando uma boa infraestrutura de gravação.

As artes sempre necessitaram de algum tipo de financiamento para se sustentar. Leonardo da Vinci e Mozart, por exemplo, dependiam do Estado para trabalhar e, em tempos mais recentes, a indústria fonográfica teve esse papel de investidor no mercado da música durante grande parte do século XX e início do XXI. Atualmente, muitos artistas encontraram nas redes sociais e na aproximação com seu público uma excelente ferramenta para auxiliá-los a financiar suas carreiras e, no Brasil, muitos também vêm buscando investimento via políticas de leis incentivos fiscais. Pelo fato de não ter surgido um modelo de negócio hegemônico, como o implementado pelas gravadoras no passado, tornou-se necessário buscar novas e criativas maneiras de se trabalhar no mercado musical, e exemplos como o da Banda mais bonita da cidade podem servir como referência para outros artistas e demais agentes da cadeia produtiva da música.

Colunista Leo MorelLeo Morel é baterista, percussionista da cena musical carioca e autor do livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos. Para conhecer o livro e demais informações acesse http://musicaetecnologia.net/, ou e-mail para leomorel@musicaetecnologia.net.

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É preciso saber viver (de música)…

Publicado em 01 junho 2011 por Leonardo Morel

Gravadoras em crise, queda na venda de CDs e download de músicas na internet. Desde o final do século passado, o mercado musical não é mais o mesmo. E o que os músicos estão fazendo para sobreviver no século XXI?


É preciso saber viver (de música)...

O processo de evolução tecnológica gerou significativas alterações na cadeia produtiva da música, ocasionando o declínio de um modelo de negócio que foi hegemônico durante grande parte do século passado baseado na ascensão da indústria fonográfica. Se, até então, a maioria dos artistas da música popular dependia de tais agentes como investidores para desenvolver suas carreiras, como atuar nos dias de hoje em um cenário em que esse artista é cada vez mais responsável pela gestão e financiamento de seu trabalho? De que forma uma banda cria condições para financiar seu trabalho e tirar seu sustento nos dias de hoje?

Primeiramente, é importante observar que o mercado musical tem diversos nichos e diferentes formas de inserção. O produtor musical e instrutor de cursos gerenciais Leonardo Salazar, em seu livro Música Ltda: o negócio da música para empreendedores (http://www.musicaltda.com.br/), classifica esses estágios, agrupando os músicos da seguinte maneira:

- Músico amador: aquele que exerce uma atividade profissional fora da área musical para se sustentar, sendo a música uma atividade “extra”, podendo tirar ou não remuneração dela.

- Semiprofissional: aquele que ganha remuneração com a música, mas necessita de outra atividade econômica para tirar seus rendimentos a fim de equilibrar seu orçamento.

- Profissional: aquele que vive exclusivamente de música, sendo essa sua principal fonte de renda.

Muitos exercem a profissão da música sem necessariamente viver exclusivamente dela. O compositor Guinga, por exemplo, dividiu durante muito tempo sua carreira musical com a de dentista e Vinícius de Moraes foi diplomata. Também é comum um músico utilizar seus rendimentos adquiridos fora do âmbito musical para investir em sua carreira artística.

Atualmente, são bastante variadas as possibilidades de trabalho na área musical, muitos atuam em diferentes nichos do mercado para tirar seu sustento e são raros aqueles que vivem exclusivamente de uma única atividade profissional. Grande parte dos músicos busca desenvolver diferentes especializações para aumentar suas oportunidades de trabalho. Um instrumentista pode, por exemplo, ter seu repertório autoral próprio, acompanhar outros artistas como contratado, realizar gravações e dar aulas. Para um técnico de som, por exemplo, existe a possibilidade de trabalhar com sonorização em casas de show e também gravar bandas em estúdios. As combinações podem variar de acordo com a aptidão e aspiração de cada um. O produtor Salazar aponta em seu livro algumas destas possibilidades profissionais do setor musical atualmente:

- Banda autoral;
- Banda tributo, ou cover;
- Banda, ou orquestra de baile;
- Sonorização para eventos:
- Montagem de estrutura;
- Empresariamento artístico (management);
- Agenciamento (booking);
- Produção executiva (show, ou disco);
- Produção de turnê (tour manager);
- Técnica (som, luz, palco);
- Direção artística (disco ou show);
- Casa de show, teatro, boate, bar (música ao vivo);
- Produção fonográfica (gravadora);
- Edição musical (editorial);
- Distribuição de discos (distribuidora);
- Comércio de discos, DVD e afins;
- Comércio de instrumentos, equipamentos e acessórios;
- Fabricação e reparo de instrumentos, equipamento e acessórios;
- Composição (autor);
- Instrumentista, ou intérprete (tocando/cantando/gravando para terceiros);
- Cantor independente (voz e violão);
- Arranjador;
- Maestro;
- Trilha sonora (publicidade, jogos, teatro, cinema, moda);
- Dj (rádio, show, festa, boate);
- Sinfônica (emprego público);
- Ensino (licenciatura);
- Estúdio de ensaio;
- Estúdio de gravação;
- Estúdio móvel;
- Mixagem;
- Masterização;
- Replicação de mídia (vinil, CD, DVD);
- Organização de eventos (festivais, concursos, prêmios, shows);
- Marketing cultural (elaboração e captação de projetos musicais);
- Design (capas de disco e material gráfico);
- Web (programação ou design para o setor);
- Assessoria de imprensa (especializada em música);
- Produtora de vídeo (clipes, documentários, DVDs);
- Tecnologia da informação (produtos para o setor).

Assim, são muitas as opções disponíveis no mercado da música para se trabalhar e vale ressaltar que uma opção não exclui a outra, pois um músico pode administrar sua carreira realizando diferentes funções de acordo com sua agenda e aspirações profissionais. Na verdade, nos dias de hoje a realidade impõem o músico a “se virar nos trinta”, ele faz de tudo um pouco, sendo uma verdadeira metamorfose ambulante. Além de tocar, ele se vê obrigado e ter noções de áreas que fogem do universo musical como gestão e marketing, por exemplo. Para tal, existem algumas publicações no Brasil que podem auxiliar a lidar com essas questões e a entender melhor esse novo mundo da música. Em breve pretendo tratar disso por aqui (por ora, outra dica legal também é acompanhar aqui no Overdubbing a coluna do Fernando Moura sobre o dia-a-dia dos trabalhos na música).

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Colunista Leo MorelLeo Morel é baterista, percussionista da cena musical carioca e autor do livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos. Para conhecer o livro e demais informações acesse http://musicaetecnologia.net/, ou e-mail para leomorel@musicaetecnologia.net.

 

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O videoclipe não é mais como antigamente?

Publicado em 27 abril 2011 por Leonardo Morel


Se no passado o videoclipe foi considerado um eficaz instrumento de marketing e foco de grandes investimentos de agentes da cadeia produtiva da música, vemos que o cenário atual sofreu grandes alterações. Enquanto que a indústria do disco apresenta sucessivos prejuízos com base na queda da venda de seus produtos, assistimos a popularização da tecnologia capaz de registrar e disponibilizar acervo audiovisual. Com isso, observou-se o volume de informação disponível gratuitamente aumentar de forma exponencial. Para muitos artistas e pessoas ligadas ao meio musical, o grande desafio nos dias de hoje é chamar a atenção do público em meio a um mar quase infinito de músicas e vídeos.

E em meio a esse “caos”, qual seria o papel do videoclipe nos dias de hoje? Que alterações foram percebidas com o advento de tecnologias capazes de registrar e disponibilizar com facilidade acervo audiovisual? Para entender esse momento, busquei conversar com dois profissionais ligados ao setor musical e de vídeo: o primeiro é o músico, DJ e jornalista musical Melvin Ribeiro (twitter.com/melvin) e o outro, o videomaker e diretor de arte Grima Grimaldi (www.grimagrimaldi.com/).

Grima defende que nunca foi tão fácil produzir um vídeo: “… meu filho e a namorada são músicos, eles estão sempre gravando seus videoclipes aqui em casa e disponibilizando o material na internet. As novas câmeras digitais de vídeo e fotografia que gravam em alta resolução e som digital têm feito com que essa produção caseira venha melhorando gradativamente a qualidade sem precisar gastar muita grana.”

Além disso, o diretor de arte acredita que tais inovações contribuíram para alterar as configurações do mercado, visto que teriam ajudado, na visão dele, a enfraquecer barreiras restritivas impostas por agentes do setor. Ele comenta: “… eu acredito que a melhor maneira de divulgar um trabalho de vídeo atualmente é utilizar as redes sociais gratuitas. Isso é proveitoso não só para o artista, mas principalmente para o público, pois não terá mais de depender exclusivamente de um programador da TV, que recebe seu jabá, para consumir cultura. Passamos anos sendo obrigados a assistir e a ouvir o que as rádios, as TVs e as gravadoras nos impunham. Alguns agentes da indústria não esperavam que essa concorrência viesse de forma tão forte e com tanta produção de qualidade”, destaca Grima.

Já o músico Melvin Ribeiro acredita que as emissoras de TV perderam seu interesse pelos videoclipes por conta do grande volume de material produzido nos dias de hoje e defende que se no passado o investimento na produção dessa ferramenta era essencial para o desenvolvimento de uma carreira profissional, e estimular as vendas de discos, hoje em dia ele crê que o foco mudou. “Antigamente, as bandas faziam um videoclipe com o intuito de passar sua imagem estética para o público e alavancar a venda de discos. Hoje em dia, vários artistas acham que vale mais a pena usar técnicas do marketing viral com o intuito de atrair a atenção de indivíduos que normalmente não se interessariam pela banda por simples questão de empatia musical. Pra mim, o caso de maior sucesso que retrata isso é o vídeo da música Pork and beans, da banda norte-americana Weezer.”

Uma das razões atribuídas ao sucesso de audiência desse videoclipe é o fato da banda aparecer interagindo com diversos vídeos que ficaram famosos na internet na época de seu lançamento, em 2007. Para Melvin, essa iniciativa fez a banda ficar conhecida entre pessoas que vão além do público tradicional do Weezer.

http://www.youtube.com/watch?v=cfOa1a8hYP8

Outro exemplo é o da música Lotus Flower da banda Radiohead, em que o vocalista Tom York aparece dançando uma coreografia que causou espanto de muita gente: “…eles (Radiohead) podiam ter feito um videoclipe lindo, maravilhoso, bem fotografado e ninguém ia querer saber a respeito, mas o Tom York dançando vira uma notícia que sai da esfera dos fãs e passa a ser comentada por mais gente. E é a partir daí que surge a chance de outras pessoas passarem a conhecer a banda.”

Assim, percebe-se que o barateamento ao acesso a ferramentas de produção e divulgação de vídeo e música possibilitou a produção de acervo audiovisual a custos menores. Além disso, vemos que mesmo com todas as mudanças de cenário apontadas, o videoclipe ainda é uma ótima forma de divulgar um trabalho musical. O desafio nos dias de hoje é transformar uma boa ideia em um bom produto e disseminá-lo no mundo virtual para gerar frutos no mundo real.

Colunista Leo MorelLeo Morel é baterista, percussionista da cena musical carioca e autor do livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos. Para conhecer o livro e demais informações acesse http://musicaetecnologia.net/, ou e-mail para leomorel@musicaetecnologia.net.

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É mais fácil ser artista hoje em dia?

Publicado em 16 março 2011 por Leonardo Morel

Com o advento da internet e o acesso facilitado aos meios de produção e divulgação musical nos dias de hoje, percebeu-se o surgimento de um número nunca antes visto de novos artistas que buscam inserir-se no mercado objetivando desenvolver um trabalho artístico. Por conta desse fenômeno, pergunto-me se atualmente está mais fácil ou difícil exercer a atividade artística em comparação com o passado, cujo modelo foi moldado de maneira bem sucedida por um longo período de tempo pela indústria fonográfica.

Durante grande parte do século XX, a indústria do disco triunfou por meio de um modelo de negócio homogêneo, baseado na centralização do controle dos meios de produção. Essa produção (os discos, depois fitas cassetes e, mais tarde, os CDs) era escoada no mercado por agentes pré-definidos e, para incentivar o consumo de seus produtos, era realizada o trabalho de divulgação nos tradicionais veículos de comunicação, na época escassos.

Atualmente, percebe-se uma inversão desse quadro em diversos pontos. Se no passado o acesso aos meios de produção musical era detido por um seleto grupo de agentes da cadeia produtiva da música, atualmente, o desenvolvimento de novos sistemas de gravação e produção musical proporcionou o surgimento dos chamados estúdios caseiros, que vêm gradativamente apresentando resultados bastante promissores quando se trata da qualidade sonora do material produzido. Antigamente, eram grandes as dificuldades para registrar uma música em um estúdio por conta dos custos de produção e hoje em dia vemos que nunca foi tão fácil gravar e divulgar uma canção.

Sobre o assunto, o cantor e compositor Pedro Luís, em entrevista concedida a mim para meu livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos comentou o assunto: “Gravar era uma fortuna. Na minha primeira demo (gravada por volta de 1981), gastei uma grana que eu não tinha, foram pessoas que admiraram meu trabalho que me deram de presente. Era inatingível gravar.”

O barateamento de tais custos gerou facilidades de acesso aos meios de produção e divulgação musical. Em decorrência disso, nunca se observou na história da indústria da música tamanho volume de material produzido. O cantor Leoni, também em entrevista para meu livro, acrescenta que “Nunca foi tão fácil ouvir música, nunca o ouvinte foi tão privilegiado… Hoje em dia, você tem acesso a todo tipo de música instantaneamente. Para você gravar é muito mais barato e para botar isso para divulgar também está muito mais barato”.

Mas isso significa dizer que atualmente ficou mais fácil desenvolver um trabalho musical em comparação ao passado? Em virtude desse grande número de músicas gravadas e novos artistas, um dos grandes desafios atualmente é conseguir se destacar. Leoni defende que O problema agora é chamar atenção. É tanta música, e como você vai chamar atenção hoje em dia?”

Rodrigo Costa, baixista da banda Forfun, comentou o assunto em entrevista concedida a mim: “Nesse momento, estão podendo chegar à música e às artes em geral pessoas que não chegavam. Um maior volume de arte significa também um maior volume de material de baixa qualidade. Mas acho que, de uma maneira geral, isso é bastante positivo.” Além disso, Rodrigo comentou dos novos desafios que o artista atual deve lidar: “Atualmente, ter uma banda não significa só estudar música e trabalhar música, é importante expandir. Tem que ter uma boa noção de design, de marketing e gestão empresarial.”

No âmbito da divulgação musical, também observou-se significativas alterações. Se no passado os veículos tradicionais de comunicação, como a TV e o rádio, eram escassos no mercado, a internet proporcionou a inserção de novos meios voltados para os mesmos fins, como as plataformas digitais de música, sites e blogs especializados em música, além das estações de rádio digital. O músico, DJ e jornalista musical Melvin Ribeiro (twitter.com/melvin_), em entrevista cedida ao livro, defende que um fenômeno que vem ocorrendo é a mudança dos intermediários na relação entre os artistas e o ouvinte. Segundo ele, por mais que plataformas como o MySpace disponibilizem gratuitamente um grande número de bandas, o ouvinte busca conhecer novos sons por indicações via blogs, sites especializados e formadores de opinião. E acrescenta: “Chegar no público está muito difícil.”

Questionado se atualmente seria mais fácil ou difícil ser artista, Melvin defende: “Acredito que esteja muito mais difícil, pois na época do vinil, as gravadoras lançavam mais artistas, tinham mais tempo e fôlego para desenvolver carreiras e arriscar em novos talentos”. E acrescenta que “… era mais fácil construir uma carreira nos anos 80 e 90 do que agora. Hoje tem dia, poucas bandas conseguem crescer sem a ajuda de agentes da indústria como foi o caso da banda Forfun, mas ela é exceção, você não vai ver por aí dez bandas com histórias similares”.

Por mais que a configuração da indústria tenha sofrido grandes alterações com a inserção de novos agentes na cadeia produtiva da música e a perda do controle do processo produtivo da indústria fonográfica, Melvin também defende que, atualmente, para desenvolver um trabalho musical é quase inviável sobreviver pelas próprias pernas sem ter acesso aos tradicionais meios de comunicação: “… se você quiser viver disso no Brasil, ainda tem de ter acesso ao rádio e a TV”.

Com base nisso, é possível perceber que os desafios para aqueles que estão buscando desenvolver uma carreira artística no mercado da música mudaram em comparação ao passado. Se por um lado está muito mais fácil ter acesso aos meios de produção e divulgação musical, a grande dificuldade no presente é levar a música ao ouvinte, cujo cotidiano está com seu tempo livre cada vez mais escasso e cercado por inúmeras opções de entretenimento como a TV a cabo e a internet.

Mesmo com as alterações apontadas, os depoimentos mencionados nesse artigo demonstram que a atual configuração do mercado ainda trabalha submisso a certas heranças do passado que ainda ditam as regras do meio. Para crescer no meio artístico brasileiro ainda é necessário buscar espaço nos canais de comunicação tradicionais e sujeitar-se às políticas restritivas de acesso, uma das principais dificuldades apontadas por aqueles que compõem este segmento.

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Eu ligo o rádio e blá, blá…

Publicado em 31 janeiro 2011 por Leonardo Morel

Recentemente, andou circulando pela internet a participação do cantor e compositor Lobão em um programa da rádio Transamérica de São Paulo. A participação dele acabou se tornando um excelente debate acerca do papel dos veículos tradicionais de comunicação, como o rádio e a TV, para a cadeia produtiva da música nos dias de hoje. Muito tem se falado que com o advento da internet, que deu suporte ao surgimento de novas tecnologias, incluindo as rádios digitais e plataformas como YouTube e MySpace, tais veículos teriam perdido a importância que já possuíram no passado.

Lobão defende que o rádio ainda é de grande importância para o desenvolvimento de carreiras artísticas no Brasil e que esse veículo continua sendo, muitas vezes, restrito a artistas que possuem o suporte de agentes do setor que pagam para executar suas músicas. Por mais que a internet tenha gerado benefícios no que tangem a democratização proporcionada pelos veículos digitais de divulgação, o rádio e a TV continuam sendo utilizados para estimular o consumo de um segmento artístico financiado por interesses coorporativos.

O acesso facilitado aos meios de produção e divulgação musical deu oportunidade para aqueles que têm interesse em se inserir no mercado musical, porém, para desenvolver uma carreira profissional no Brasil ainda é necessário ter acesso aos meios tradicionais de comunicação. Com base nisso, Lobão acrescenta que tais veículos atualmente encontram-se interligados, defendendo que:  “… a TV aclama o que o radio divulga que foi farejado na internet. São três estágios, e todos são interligados.”

Além disso, ele lamenta o fato de não existir nos dias de hoje uma estação de rádio com o perfil da extinta Rádio Fluminense, que executava novos artistas nos horários de maior audiência e foi responsável por lançar uma geração de grandes talentos da música popular brasileira nos anos 80. Quando se trata do acesso restrito aos tradicionais veículos de comunicação, o discurso de Lobão bate com o abordado por Mauro Dias em seu artigo “Sobre o Jabá”:

“Não há questão moral a ser considerada. O negócio é dinheiro. Um bom compositor, cantor, instrumentista, vai ter de se submeter a determinados imperativos (ditados pelos que pagam a execução), ou fica de fora. Quem não entrar no esquema não aparece. Quem quer entrar no sistema precisa ter muito dinheiro – precisa pagar mais ainda, porque as “vagas” são limitadas. Se entra um, sai outro. (…) Só quem entra no esquema, claro, é a grande indústria, que tem o dinheiro – e que inventou o esquema, afinal. (…) Ou seja, estamos falando de economia, de lobbies, de pressões, não de música. Enquanto isso, o ouvinte vai acostumando o ouvido com as barbaridades criadas nos laboratórios de marketing das companhias de disco e perde a capacidade de comparar. E os criadores… Bem, os criadores, os artistas verdadeiros, que existem, quase ninguém sabe, vão resistindo o quanto podem. Um dia, desistem – os novos Chicos e Caetanos, as novas Elis Reginas e Nanas Caymmis, os novos Jobins e Fátimas Guedes um dia desistirão. Precisam comer, vestir-se, sustentar filhos. A ganância dos executivos está promovendo um massacre da cultura brasileira que talvez não tenha similar na história da humanidade. Estão matando de fome o que temos de mais rico – nossa música. Matando de fome a inteligência e a sensibilidade.”

(Disponível em: http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=129&titulo=Sobre_o_Jaba)

Vale ressaltar que o referido artigo foi originalmente publicado no jornal Estado de São Paulo, em 1999, ou seja, há mais de dez anos e vemos que, apesar disso, pouca coisa mudou. Ainda sobre o papel do rádio nos dias de hoje, alguns artistas reclamam que tais veículos também são responsáveis por ditar a forma como suas composições devem ser adaptadas para serem executadas. O cantor e compositor Jay Vaquer comentou o assunto em entrevista concedida a mim para meu livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos, defendendo  que: “Eles (agentes das rádios) são gênios da lâmpada criando loucuras. Como pode acontecer uma renovação se as condições de acesso estão vinculadas ao poderio econômico por trás das carreiras?”. Já o cantor Leoni, também em entrevista cedida a mim para o livro, ressalta que “…ele (o rádio) ainda é importante porque o mercado ainda não se adaptou a essa nova fase.

Baseada nessa nova fase do meio musical, marcada pela utilização da internet como um eficiente meio de divulgação, a produtora Liana Brauer, que trabalha na LIGA Entretenimento, responsável por artistas como Lulu Santos, Preta Gil e a banda Scracho, diz que grande parte das bandas que conseguem atualmente desenvolver um trabalho profissional a partir da utilização da internet opta por investir suas receitas obtidas com os shows em divulgação nos veículos tradicionais de comunicação. Ou seja, usa-se a internet para se divulgar um trabalho, e a receita gerada com shows é voltada para pagar a divulgação no rádio (jabá) e TV. Alguma dúvida sobre a importância de tais veículos nos dias de hoje?

Com isso, vemos que apesar de toda a evolução tecnológica, que gerou grandes alterações na sociedade e consequentemente no meio musical, nem tudo mudou. Por mais que se fale da democratização da internet, os interesses coorporativos continuam ditando as regras do mercado e percebe-se que nos últimos anos pouco se evoluiu nesse campo. É bom frisar que estamos em período de mudança de gestão presidencial e registro aqui a importância de se debater tais condutas que, a meu ver, são criminosas e ferem um dos principais valores da identidade nacional: a música brasileira. Fica aqui meu apelo para Ana de Hollanda, atual ministra da Cultura, para que se discutam tais questões. Ou seria caso para o Ministério da Justiça?

Colunista Leo MorelLeo Morel é baterista, percussionista da cena musical carioca e autor do livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos. Para conhecer o livro e demais informações acesse http://musicaetecnologia.net/, ou e-mail para leomorel@musicaetecnologia.net.

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Resultados concretos em cenário de “caos” fonográfico

Publicado em 05 janeiro 2011 por Leonardo Morel

Mp3 player

Foi-se a primeira década do século XXI, e percebe-se que o mercado musical ainda busca alternativas para se adaptar às mudanças surgidas desde o final do século passado, responsáveis pelo declínio de um homogêneo modelo de negócio consolidado pela indústria fonográfica. Se até em um passado recente era bastante clara a forma como a música era escoada como bem de consumo para um mercado consumidor definido, o que se vê ao início de 2011 é a sensação de instabilidade ainda calcada na busca de modelos substitutos que possam solucionar muitos dos obstáculos encontrados em virtude das mudanças vistas.

Nos últimos anos, observou-se o surgimento de algumas iniciativas inovadoras que buscam criar novas alternativas para o desenvolvimento da cadeia produtiva da música. Uma banda que tem obtido resultados concretos com a implementação de estratégias de trabalho que utilizam como base as tecnologias disponíveis é a banda carioca Forfun. Esse conjunto, que vem conquistando cada vez mais seguidores pelo Brasil, realiza sua divulgação exclusivamente na internet e possui sua própria estrutura de trabalho, formada por profissionais de diferentes áreas, como especialistas em marketing digital, técnicos, produtores e o empresário, Marcos Sketch.

Danilo Cutrim, vocalista da banda, em entrevista pessoal para meu livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos, comentou sua estrutura de trabalho: “Montamos uma gravadora que é nossa, com outros padrões financeiros e com outras crenças também”. É importante frisar que a receita obtida com as apresentações da banda viabiliza essa estrutura de trabalho: “A gente faz um fundo e dele sai tudo: assessoria de imprensa, assessoria de TV, etc”.

Atualmente, enquanto a Forfun prepara o lançamento de seu novo disco, seu empresário Marcos Sketch realizou um balanço dos resultados obtidos com o último disco da banda, o Polisenso, disponibilizado para download gratuito no site oficial. Ele defende que “por mais que soubesse que o disco fosse parar de qualquer forma em mp3 na internet, acho que a oficialização do download (gratuito) permitiu uma disseminação mais rápida e ainda maior. O alcance que o disco teve com o ‘download oficializado’ fez o som da banda chegar a pessoas e lugares que não chegaria se fosse feito de qualquer outra forma”.

Sketch relatou que no período de dois anos foram contabilizados 700 mil downloads do disco inteiro, baixado diretamente no site oficial da banda, e acredita que, além desses downloads oficiais, por meio da divulgação boca a boca feita pelos fãs e das redes de compartilhamento, o álbum tenha chegado à mão de mais de um milhão de ouvintes. E ressaltou, ainda, que nesses dois anos de trabalho com o Polisenso, a banda obteve a maior receita de toda sua carreira, fez a maior quantidade de shows/ano e tocou em dezenas de cidades por onde a banda nunca havia tocado.

Com isso, podemos ver que já existem iniciativas bem sucedidas no Brasil. Acredito que o nicho do mercado musical jovem, também chamado de teen, esteja ajudando a reescrever as diretrizes do mercado musical brasileiro, pois vemos que estratégias similares às adotadas pela Forfun vêm atingindo resultados bastante promissores.

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Modern Sound: e lá se vai mais uma loja de discos

Publicado em 20 dezembro 2010 por Leonardo Morel

 Fim da Modern Sound

Em dezembro, o meio musical e os amantes da música ficaram surpresos com o anúncio do fechamento de uma das mais tradicionais e respeitadas lojas de discos da cidade do Rio de Janeiro, a Modern Sound. Suas atividades tiveram início há 44 anos e acabou se tornando um dos mais conceituados estabelecimentos do ramo por conta de um vasto acervo proveniente de artistas independentes, gravadoras multinacionais e independentes que tinham a Modern Sound como local garantido para vender seus produtos. Além disso, há cerca de dez anos, a loja havia inaugurado um espaço para shows que sempre contou com boa presença de público.

Histórias similares vêm acontecendo com a grande maioria desses estabelecimentos desde o final do século passado, quando surgiram novas formas de se produzir, distribuir e consumir música. Vale lembrar a cadeia internacional de lojas de discos Tower Records, que fechou suas portas no ano de 2006.

Com base nesses fatos históricos, muitas conclusões podem ser abordadas e citarei a seguir um relato que pode contribuir na compreensão desse atual momento.

Em outubro de 2008, estive presente no Seminário Internacional de Direito Autoral aos Novos Rumos, promovido pelas associações que integram o sistema autoral brasileiro no campo da execução musical e demais segmentos de criação intelectual do país. Um dos palestrantes foi Eric Baptiste, diretor geral de uma das maiores associações de arrecadação de direito autoral do mundo, a Confederação Internacional de Sociedades de Autores e Compositores (CISAC).

Fenômenos como o que vem ocorrendo com a Modern Sound podem ser explicados por uma questão definida por ele como delivery of music (entrega da música). Ele defende que o acesso a esse bem mudou, deixando o formato tradicional obsoleto e ineficaz. Além disso, acredita ser necessário avaliar o valor da música para o público em geral atual: “Muitas marcas investiram em marketing e inovações visando oferecer ao público produtos que pudessem realizar o sonho das pessoas. (…) Atualmente, aparelhos como telefones celulares e máquinas digitais de fotografia caíram nas graças do público”. Os discos, na visão dele, perderam seu valor se comparados a esses produtos.

Porém, Baptiste citou ainda que, em pesquisa realizada na sua terra natal, a França, descobriu-se que 97% dos franceses ouvem música todos os dias. No Brasil, por se tratar de um país bastante musical, creio que não deva ser diferente.

Através disso, podemos perceber que a relação da sociedade com a música passa por significativas mudanças desde o final do século passado com o advento da internet e o acesso facilitado a novos meios de produção e divulgação musical. O desafio agora é fomentar o equilíbrio entre os interesses coorporativos e os da sociedade para que se possa desenvolver um mercado legalizado e adaptado para as necessidades atuais de demanda.

Colunista Leo MorelLeo Morel é baterista, percussionista da cena musical carioca e autor do livro Música e tecnologia: um novo tempo, apesar dos perigos. Para conhecer o livro e demais informações acesse http://musicaetecnologia.net/, ou e-mail para leomorel@musicaetecnologia.net.

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